sábado, 5 de março de 2011

São Francisco, penúltima cidade do nosso roteiro pelo Velho Chico...

Texto de Christina Streva

Chegamos à São Francisco, cidade ribeirinha do norte mineiro, em dia histórico. Dia no qual o padre José Antonio da Rocha Lima, prefeito da cidade, foi cassado por unanimidade pela Câmara Municipal de São Francisco após a operação “Conto do Vigário” que revelou um grande esquema de corrupção local com desvios da ordem de cinco milhões de reais.

São Francisco é o retrato da corrupção e do isolamento. Uma cidade sem qualquer atrativo, semi-abandonada, e extremamente carente. Um péssimo hotel, praticamente nenhum restaurante, e um sol a pino de mais de 40 graus. Pela maioria das cidades pela qual passamos a mesmo discurso se repete. A cada rádio, a cada entrevista, a cada encontro, nos deparamos com um povo saudosista, cheio de lamentos, porém extremamente receptivo e curioso. Queixoso e nostálgico por uma época na qual as festas populares, o teatro, e as salas de cinema faziam parte da vida cotidiana. Nenhuma dessas salas de cinema sobreviveu aos dias atuais.

A grande maioria, como vem acontecendo também nas capitais, tornou-se templo de igrejas evangélicas. Até mesmo, o tradicional e famoso Carnaval do norte de minas vive uma fase de forte decadência. O motivo apontado é sempre o mesmo: a mocidade de hoje não gosta mais de arte e de cultura! Essa ladainha vazia e equivocada esconde, na verdade, uma profunda falta de oportunidade e de conhecimento.




Porque a realidade que se apresenta é justamente a oposta. Praças lotadas de jovens, crianças, estudantes, idosos. Atenção, encantamento e curiosidade.
E nossa passagem por São Francisco não foi diferente. Auxiliados pela professora Adalgisa, secretária de cultura da cidade, mulher guerreira, simples e batalhadora, tivemos mais uma vez a oficina e a apresentação lotadas. Na Praça Centenária nos deparamos com um público receptivo, atento, acompanhando cada minuto da peça, rindo, participando e comentando.




Ao término da apresentação, um assédio espantoso deixou todos nós atordoados. Foi difícil até começar o debate porque as pessoas não saiam de cima dos atores e da equipe técnica. Eram autógrafos, fotos, perguntas... Em meio a toda aquela confusão, eu percebia o grupo cansado, mas com um belo sorriso no rosto, dando atenção a toda aquela gente que queria conversar, perguntar, conhecer.

Há um mês na estrada, nesse ritmo frenético de apresentações, oficinas e debates, do constante entra e sai de hotéis, de viagens longas de até 12 horas de duração, a exaustão começa a tomar conta de todos nós. Ainda bem que teremos uma oportuna folga de cinco dias durante o Carnaval, em Pirapora. Tempo para o meu povo descansar do batente e recuperar as forças para o segundo mês de turnê.




Apresentação...


11 comentários:

  1. Eh meus amigos, vocês puderam perceber o quão necessitado é esse nossa região ribeirinha neh...Mas em cada cidade tem sua necessidade e sua carência em determinados espaços, e no espaço da arte e da cultura, a abrangência é escassa, mas não totalmente vazia.
    Muitos buscam se encontrar nesse espaço, mas devido a falta de apoio e até mesmo de incentivo, não é possível realizar algumas vontades.
    Fica aqui meus sinceros votos de que tudo mude e para melhor e que mais artistas possam nascer, mesmo que de uma breve Oficina.
    Milhoes de beijos recheados de carinho e admiração.

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  2. Para quem não conhece e ignora acerca de vários detalhes de uma cidade como São Francisco, mas que conhece um pouco da realidade brasileira e inventa de ser artista numa terra de coronelismo hitoricamente falando, tem que enfrentar algumas dificuldades.

    O teatro tem um papel muito mais importante do que apenas "divertir". O nosso trabalho está a serviço dos seres humanos, o que inclue todos os povos e povo de São Francisco. Fazer teatro pode ter a função de diversão, mais nem toda hora estou para brincadeira e posso questionar as estruturas de poder político que connhecem muito bem sobre as verbas para cultura, educação e saúde e como me falou um acessor de um prefeito quando perguntei sobre isso e ele me respondeu: "É ! a verba sai de Brasília,mas com a burocracia só chega 10% aqui na cidade." burocracia é ótimo.

    Enfim, o papel do teatro é reeducar,valorizar a auto estima,fazer refletir sobre sua realidade e desestabelecer verdades com os mais diversos recursos ou simplesmente com um ator,um texto e uma platéia...

    Situando a pessoa que não quis se identificar, João Pessoa,Pb não se localiza no sertão,mas no litoral. Antiga capitania de Itamaracá que na época abrangia os atuais estados do Rio Grande do Norte,Paraíba e Pernambuco.

    Zé Guilherme, músico e ator.

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  3. Oi Calina,
    No meio da multidão que assistiu ao espetaculo estava presente e realmente gostei da apresentação.
    Como um bom apreciador da arte, aplaudir mesmo quando notei alguns erros de coreografia do grupo. Mas o mais importante é o conteudo, a riqueza da apresentação cultural.
    São Francisco é uma cidade rica, pelas suas grandezas naturais, geograficas e economicas.
    Como toda cidade passa por suas dificuldades, mas sempre recebe bem aos seus visitantes.
    Uma boa parte da nossa população ficou indignadas com as palavras e texto que descreve em seu comentario. Muito proximo da ingratidão humana.
    Gostaria de em outra oportunidade, que viesse a São Francisco, conhecesse as nossas riquezas, a começar adimirando a beleza do rio São Francisco, e deixando para o passado os fatos ruins que viveu nossa cidade. As criticas são boas quando são construtivas, o que acredito não foi o seu objetivo.
    A grande qualidade do artista, é saber conviver com a realidade da vida humana, e retrata-la em sua obra.
    Fica aqui uma sugestão, de um aprendiz que gostaria de entender a descrição de um artista. Um abraço pesaroso, Luciano Meira

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  4. A proposta do patrocinador do Ser Tão - Chesf/Eletrobras,de acordo com o edital, é financiar e apoiar projetos de preservação e memória, produção e difusão cultural. Acredito que o mesmo não ficaria satisfeito em saber que pela passagem da trupe por São Francisco-MG, tal proposta foi suplantada pela da difamação e deturpação da imagem da cidade, visto que, o internauta que lê a postagem, vê uma cidade muito aquém do que realmente é.
    Desconheço os critérios de seleção das cidades contempladas pela apresentação do grupo, apesar de saber que o mesmo fêz uma circulação pelas dez principais cidades do Rio São Francisco, e fiquei satisfeita, a priori, em saber que houve algum aspecto na cidade que chamou atenção, pensei. Entretanto,sugiro que, ao selecionar as cidades por onde a trupe pretenda passar, façam uma prévia pesquisa bastante fundamentada e embasada sobre as mesmas, sobretudo em relação aos seus atrativos, para que não tenham uma imagem deturpada daquelas que, em apenas dois dias, não possibilitem mostrar seus atrativos e belezas naturais. Tal pesquisa possibilitará, ainda, que analisem se a cidade enquanto espaço político-administrativo "mereça" recebê-los, visto que seus habitantes e público-alvo da apresentação teatral, enquanto admiradores e valorizadores das diversas manifestações culturais que assistiu atento e que muito gostou da apresentação proporcionada por talentosos atores, não foi levado em conta.
    Espero que tenham oportunidade de conhecer a São Francisco que tanto amo, bem como seu maravilhoso pôr-do-sol.
    Abraços,
    Maria
    Bjos.

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  5. Tal foi a bela apresentação da trupe, que parte dos atentos espectadores e admiradores da 5ª arte existentes em São Francisco, e que alguns insistem em ignorá-los, extasiados e sem pestanejar, se sentiram à vontade em pedir autógrafos e saber detalhes sobre o grupo.
    Essa atitude, que ao meu ver, denota apreciação e valorização do grupo, foi considerada, segundo a editora do blog,"um assédio espantoso que deixou todos atordoados".Diante disso,gostaria de compreender o que se entende por "meia hora de interação com o grupo e de respostas a curiosidades sobre o mesmo",fala de um dos integrantes do grupo, proferida ao final da apresentação. Onde estava a equipe técnica ou organização para, na eventual necessidade, conter "toda aquela confusão"? Com essa experiência sugiro que, para o conforto e bem-estar do grupo e para prevenir eventuais "vexames" do público, pensem que o público-alvo das diferentes cidades por onde passam têm diferentes perfis, para que sejam consideradas suas peculiaridades.

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  6. Caros comentaristas,
    O objetivo do texto não foi de forma alguma ofendê-los. Se alguns de vocês assim sentiram, peço minhas sinceras desculpas. Certamente, minha passagem por São Francisco foi rápida e coincidiu com uma época muito particular, dia de todo aquele triste episódio político que acompanhamos.
    Sendo assim, e como não poderia ser diferente, parte do texto retratou o momento da política local. Tenho certeza que São Francisco, assim como as outras cidades que visitamos, tem vários encantos e belezas. Fomos muito bem recebidos, adoramos a apresentação, o povo, os alunos da oficina, a Secretária de Cultura, como também deixo bem claro no texto. Quanto ao sol escaldante, o comentário se deu apenas em função da árdua tarefa que vivemos por todas as cidades por onde passamos, de montar o cenário nessa temperatura, e não algo particular de São Francisco.
    Enfim, me solidarizo com vocês pelas dificuldades enfrentadas com o poder público local nos últimos tempos, torço por todas as melhorias que estão anunciadas, e espero sim voltar a São Francisco e desfrutar mais as belezas da cidade.
    O teatro surge do conflito e tem a obrigação de revelar as contradições e as ambigüidades. Ajuda-nos a olharmos para nós mesmos, vendo tudo que temos de bom e de ruim. Essa é sua verdadeira força. Traz à tona o belo e o grotesco, desmascara, revela. E ajudando a nos enxergar melhor na nossa totalidade, individual e coletiva, nos fortalece. Afinal, é exatamente disso que trata a peça que apresentamos. E se, para alguns, meu texto pareceu só retratar coisas tristes, ele certamente deve ter sido mal escrito mesmo, pois essa não é a lembrança que levo comigo da cidade, da apresentação, da oficina e das pessoas que conheci aí.
    Um forte abraço,
    Christina

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  7. Francisco Amâncio15 de março de 2011 12:49

    Caros amigos do Ser Tão,

    Não levem a mal os comentários anônimos e da Maria (que acho que no final vem da mesma pessoa).

    Eu assisti o espetáculo em pé do início ao fim e fiquei muito contente com a passagem do grupo por nossa cidade, que é sim muito abandonada pelo poder público. Acho certo o grupo revelar as verdades ao invés de florear com falsidades.

    Peguei autografos com vocês, os achei muito receptivos e entendi muito bem que vocês não estão acostumados com o assédio como aconteceu. Lembro da diretora de vocês sem conseguir dar início ao debate. Isso realça ainda mais o nosso desamparo e a nossa carência. Concordo com o comentário do Wyliane Brito, talvez a única pessoa que tenha dito alguma verdade sobre nós.

    Pôr-do-sol tem em todas cidades, e roubalheira também. Até mesmo no estado de vocês o governador foi cassado recentemente, não é? Uma triste realidade que não está presente apenas em nossa cidade.

    Com certeza esses comentários feitos são de alguém que só olha pro seu umbigo e que certamente tem um emprego ou alguma regalia da prefeitura.

    Voltem sempre a São Francisco. O nosso povo precisa de cultura e de atenção.

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  8. Oi Calina,
    A nossa terra fica "na ponta dessa estrada"... "não chega a ser um pontinho preto no mapa" mas me diga, conheceu nosso por-do-sol?
    Conheceu nossas veredas? Conhececeu nossas histórias? Conhceu nosso Boi de Reis? Conheceu nossas Folias? Uma pena que não tenha tido mais tempo para conhecer as coisas boas da nossa terra. Conversei um pouco com o Rodrigo e com o Galego. As eles pude contar um pouco das histórias encantadas dessa terra. Voltem com tempo para poder conhecer de fato essa terra. Façam como outros grupos que por aqui passaram como é o caso do Galpão, do Kabana, do Maria Cutia (e muitos outros).
    Abraço do sertanejo Guilherme.

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  9. Douglas A. Liberato15 de março de 2011 16:48

    Olá Christina Streva, não creio que tenha falado para deturpar a imagem da cidade, levando em conta que poucos são-franciscanos sabiam que tal fato político acontecia na cidade, mostrando o desinteresse dos mesmos pelo assunto. É lamentável que tenham presenciado mais um fato lastimável em nosso município que, querendo ou não, já havia sido notícia na mídia televisa e via internet pela mesma emissora que cobriu o escândalo. Assim o seu relato pela passagem em São Francisco fica entendido como um apelo de uma visitante que se sentiu incomodada a com a nossa realidade.

    No entanto, já dito no comentário anterior, só faltou um pouco de elegância em comentar alguns pontos ocorrentes após a apresentação do grupo, como exposto pelo Francisco Amâncio anteriormente. Estive lá e sei que alguns “telespectadores” se portaram vergonhosamente durante e após o espetáculo, falta de uma maior aproximação do público com eventos do tipo. É verídico que muitos não sabem se portar ao novo.

    Críticas por críticas, é bom saber que São Francisco está se tornando a rota de muitos grupos de teatro de rua, e como um grande apreciador da arte, se aqui retornar, será(ão) muito bem vinda(os).

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  10. O Grupo Ser Tão Teatro se reserva ao direito de mediar os comentários. Não serão aceitos comentários anônimos e nem ofensivos.

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  11. Adorei ter conhecido todos vocês!gostei muito da sinceridade de vocês quando falou da cidade!moramos sim em uma cidade pobre de cultura,e com pessoas pobres de espirito mas em meio tantos acomodados tem pessoas assim como eu,cheias de sonhos!e um dia eu pretendo fazer pelo menos metade da trejetoria de vocês!podê ver o brilho e força de vontade nos olhos de cada um de vocês!pode ter certeza que vou levar a historia de vida de vocês como exemplo pra o meu futuro!beijao!

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